Zé Pandeiro e Maria Serpentina

Zé Pandeiro e Maria Serpentina

Carnaval, ou você ama, ou você odeia

A época de Carnaval é sempre motivo de segregação entre os que o amam e os que odeiam o evento. Sempre fiz parte deste segundo grupo, ignorando solenemente os Carnavais de toda minha vida, apesar do samba, seu ritmo peculiar, me agradar desde há um bom tempo.

Já manifestei aqui visões mais positivas sobre o Natal, sobre o BBB e sobre a Copa do Mundo. Evidentemente todos nós temos nossos gostos e preferências, mas quando manifestamos uma preferência muito agressiva por um lado de uma situação, rejeitando tudo o mais que a envolva, podemos estar baseando nossas opiniões em preconceitos. Creio que numa situação assim precisamos ser capazes de alguma auto-crítica e rever nossa visão entendendo e aceitando a realidade como ela é, com seus pontos negativos e positivos, não nos permitindo manifestações hostis – sempre ridículas – de preconceito baseadas em nosso raso conhecimento das coisas. Não podemos agir como a criança que diz que não gosta de alguma comida diferente sem antes a ter experimentado.

Ora o Carnaval. Como bem escreveu a jornalista Rachel Sheherazade em texto polêmico, sabemos que a maioria da população brasileira não gosta do evento e aproveita a ocasião para descansar e relaxar longe de casa, seja na praia, seja no interior. Sabemos que não é uma festa tão tipicamente brasileira como se diz orgulhosamente. Eventos populares assim, de vários dias, remontam ao império romano, e quem sabe antes ainda. A receita do pão e circo para iludir entreter o povo vem justamente daquela época. Sabemos também que, justamente motivados pela política do pão e do circo, tais eventos são custeados pelo poder público. Chegamos é claro a nos revoltar com o incentivo que o próprio governo cria para certos comportamentos promíscuos, como a livre distribuição de camisinhas para os mais sem-vergonha e a disponibilização de ambulâncias prontas para os bebuns serem ressuscitados de seus comas alcoólicos.

Quantos motivos contra o Carnaval, hein? Mas essa é a parte negativa do evento, um prato cheio para os pessimistas, convenhamos. Contudo, ainda assim, acredito que nós, os que não simpatizamos com a folia, devemos entender que ela tem o lado positivo, e bem positivo. O da alegria, da celebração da vida. Sabe aquela metáfora que demonstra a posição de quem segue com a banda e de quem fica vendo a banda (vida) passar? Pois é disso que falo. Quem mais reclama do barulho é justamente quem fica vendo a banda passar de cá de suas vidinhas medianas…

Sei que há várias manifestações possíveis de alegria, de felicidade e de vida. Mas não vejo nenhuma tão eletrizante quanto o Carnaval. Embora me cause horror a idéia de participar de algum carnaval de rua, acho bonito ver o povo ali, reunido, cantando, dançando, se entregando para a vida, e saindo dela com memórias inestimáveis. Lembro de ter participado de UM baile de Carnaval infantil há muuuitos anos, e até hoje lembro com carinho daquele dia. Tenho certeza que não participei de outros de lá pra cá mais por timidez e por andar com amigos que também “não gostavam” do carnaval, do que por aversão ao baile em si. Porque, dependendo de como, onde e com quem se comemora, o carnaval PODE SER SIM muito divertido.

E os desfiles oficiais de São Paulo e do Rio de Janeiro? Que maravilhosa expressão artística é aquela? Como são sofisticados nossos carros alegóricos, nossas fantasias, nossa imaginação e nossa criatividade!!!? Que mundo maravilhoso de fantasia, alegria, vida e sensualidade o brasileiro sabe criar!!!

Não podemos desprezar essa realidade.

Temos a maior festa do mundo e alguns (muitos) de nós ainda desprezamos isso, como se fosse feio fazer festa e curtir a vida. Como se fosse feio fazer a festa mais fodástica do mundo. Mas se o desfile do Rio ocorresse em Nova York, então sim ia ser bonito e chique, não é? E então lamentaríamos por o Brasil não ter nada do gênero…

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Você lamenta o Brasil ser o país do samba e do futebol? Preferia que fosse o país da polka e do hóquei no gelo?

Veja também: Não é entre você e o carnaval