Descuidado zelo

Descuidado zelo

Quero louvar o zelo desenvolto
com que arranjas o próprio desmazelo
é sempre para mim cabelo solto
por melhor penteado o teu cabelo

Em doce névoa de volúpia envolto
gozo contente o descuidado zelo
com que logras fazer de um mar revolto
de ondas lisas o clássico modelo

Mergulham minhas mãos na noite funda
da perturbante tempestade em ordem
que o teu rosto claríssimo circunda

E encontram minhas mãos onde mergulham
um ninho de relâmpagos que mordem,
novelos de serpentes que fagulham

Gilberto Amado – 1887 / 1969