O texto abaixo é de Carolina Dini, e foi publicado originalmente aqui.

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No caso, a parte prática. A teórica eu deixo – e acredito – na sua capacidade labial.

O velho dilema da roupa íntima. Para muitos, debatido em excesso. “Calcinha bege não pode, cueca furada é feio e tanguinha nem pensar”, é o que aponta o primeiro parágrafo da cartilha pelada. É isso. Porém, um pouco mais complexo. Ou completo. É preciso, além de escolher, saber tirar. E como tirar.

Escolher a lingerie, segundo a percepção feminina, é missão muito diferente. Chega a ser um ritual. Uma delícia de ritual, diga-se de passagem. Que aguardamos, esperamos, desejamos e planejamos dias para contemplar cada segundo de propósitos e combinações.

E é exatamente por isso que torna-se altamente broxante quando, na hora do sexo premeditado (somos dessas), vocês simplesmente arrancam a calcinha escolhida a dedo de uma só vez. Sem pestanejar. Como se fosse um morto de fome rumo ao prato de comida. Ok, às vezes você é. Mas é que, no mínimo, deve-se começar pelas beiradas.

Portanto: compreenda.

Ela não escolheu nada por acaso.

Se tudo for planejado, ela vai gastar meticulosos minutos procurando a lingerie certa. A lingerie. Já quando o encontro prometer mais (defina mais de acordo com: muita sacanagem), possivelmente vai fazer questão de sair para comprar uma nova. Uma que combine com o formato do corpo. Que valorize as curvas. Que empine a bunda. Que a deixe linda.

Ela vai eleger a peça a ser usada de acordo com a roupa escolhida, conforme a ocasião, se casual ou não, de acordo com o tempo, e, principalmente, segundo o estado de espírito. Ela vai se olhar no espelho duas vezes pra ver se caiu bem. Sim, mulheres são criaturas meticulosas – e fantásticas.

Portanto, quando sua intuição disser que vai rolar alguma coisa, diga à mulher onde pretende levá-la, fazendo com que a imaginação dela na hora de escolher a peça certa possa fluir.

Prestenção

Prestenção

Por que disse isso?

Pra você ver como é complicado.

Valorize.

Entenda o que a roupa dela quer dizer.

Isso é importante.

Isso é foda.

Pois, se o corpo fala, a roupa grita. O visual diz mais do que os próprios movimentos. Atente-se.

Vestido leve, por exemplo. A opção mais plausível é uma calcinha sem costura, que não deixa marcas sob a roupa. Oportunidade para um elogio pontual: o contorno dos quadris fica ainda mais evidente. A calcinha chega a ser quase uma extensão da pele tão macia e desejada.

Se porventura ela eleger um sutiã tomara-que-caia, que é erroneamente muito pouco valorizado como um item sensual, não vá arrancando por baixo ou por cima, espremendo desajeitadamente os seios dela. Afaste os cabelos da moça, puxe o sutiã primeiro para cima, segurando com firmeza os peitos dela, depois tire do mesmo modo que foi colocado, desabotoando as travas na parte das costas e descendo lentamente as alças, como quem desembrulha cuidadosamente um bombom derretido por conta do calor. (De nada.)

Ainda sobre o sutiã. Observe se não é daqueles que se abotoam na parte da frente antes de tentar tirá-lo numa tentativa atrapalhada, deixando assim de torcer os braços da moça.

“Sejamos pornográficos. docemente pornográficos” Drummond

Se já namorarem há algum tempo, pergunte por onde anda aquela calcinha preta com detalhes vermelhos. Ela vai se sentir a criatura mais desejada e gostosa do planeta, vai ter a certeza do seu carinho e atenção. E atine quem ganha com isso?

Dê atenção as curvas do corpo, demonstre total interesse na sua preocupação em se sentir gostosa.

Aprecie a renda desenhada da calcinha branca. Elogie, comente, sinta o tecido, fale sobre o lacinho rosa e a transparência que deixa a peça tão delicada.

Num dia qualquer – não antes de verificar o tamanho do manequim – dê um conjunto sugestivo de presente e peça para que ela desfile pela sala. E aja como o verdadeiro presenteado. Diga o quão gostosa é ela, diga que a visão dela naquele conjunto nunca mais vai sair da sua cabeça.

A cinta-liga e o espartilho geralmente andam acompanhados. Uma mulher jamais usará uma cinta-liga despretensiosamente. Ao invés de enxergar esse artefato como uma mera firula de mulherzinha, como muitos homens acreditam ser, pense nela como um prolongamento do prazer ou verdadeira preliminar.

Estime a escolha. Além de todo o trabalho que ela teve, um conjunto desses não é algo barato.

Por falar em barato, saiba que, acaso sua companheira esteja usando umas das peças citadas, não foi um xaveco barato, muita vodka ou carência que fez você levá-la pra cama. Ela já estava preparada. Por tudo isso, faça como quem degusta lentamente o último pedaço daquele doce que te dá tanto prazer e prolongue-o, aproveite-o ao máximo.

Não apresse as coisas. Mas não tenha pudores.

É claro que, na ocasião daquela rapidinha e no auge da excitação não dá pra prestar atenção em cada detalhe do que ela está vestindo. Inelutável também que a atitude dela conta muito mais que a lingerie em si.

Um homem que observa e comenta sobre a roupa íntima da companheira faz massagem no ego dela sem saber.

Excite-a da maneira mais sincera e fatal: provocando-a. São com esses elogios que você começará a tirar a roupa da sua mulher – ou melhor: fará com que a própria tenha vontade de tirar.

Bem melhor.