Lindo, mas com prazo de validade

Lindo, mas com prazo de validade

Alguns grupos de pessoas, bastante idealistas e românticas, acreditam no amor quebra-cabeça.

É o amor entre duas pessoas que se encaixam perfeitamente, entre aquele casal em que até os defeitos combinam, tão lindo que é o casal.

“Nasceram um para o outro”, dizem orgulhosos por verem sua ideia de amor manifestada.

Então, por qualquer motivo normalíssimo nessa vida louca, os dois se afastam.

Já nem uso mais o termo separação, ele é dramático demais. Ora, o que mais tem ocorrido desde que o mundo é mundo, são aproximações e afastamentos.

É da vida que seja assim, por mais sofrido que possa ser.

Então, quando o par que forma o casal quebra-cabeça se afasta, dizem, magoados:

“Ah, então não era amor de verdade.”

Na cabeça dessa gente sonhadora, que assiste filmes americanos demais, tinha de ser para sempre.

Quanta infantilidade. Enquanto o relacionamento alheio se encaixava no padrão de amor romântico e perfeitinho, era verdadeiro. Uma vez que ele não se encaixou mais no ideal de amor, não é mais verdadeiro.

Pode ter sido 10 anos (ou 20, ou 30, ou 50) de um relacionamento muito prazeroso na maior parte desse tempo.

Mas se acabou, não foi verdadeiro.

Será que um amor de mentira duraria 10 anos?

As pessoas categorizam demais o incategorizável. Depois sofrem porque descobrem que o que é humano não é categorizável. Tudo que é humano, é graduado. Em humanidade, não existe 8 ou 80. Só em algumas mentalidades megalômanas, aquelas que acreditam (sinceramente) que o modo como enxergam as coisas é o certo, e TODA A REALIDADE EXTERIOR é que está errada.

Para mim, amor verdadeiro é isso aqui, e amar significa isso aqui.

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Reproduzo abaixo texto de Frederico Elboni, autor e roteirista do programa Amor & Sexo da Globo. O texto inspirou e ao mesmo tempo completa, de forma mais elegante e objetiva, este meu comentário acima. Os grifos são meus:

Volta e meia a vida nos dita que devemos apequenar nossos instintos de amor para não parecermos franzinos ou perdermos o que alguns definem como o nosso valor. Para muitos o não amar virou motivo de orgulho, virou honra de saber destilar um desapego, ao meu ver, antilógico. Uma pessoa não se torna vulnerável por saber amar. Uma pessoa se torna vulnerável ao viver presa nessas lógicas pequenas de vida.

Quando falo em amor, as pessoas já constroem em mente castelos de carinho, beijos no cinema, finais de semana regados a frio e filmes, mas isso é tão pouco perto da resiliência do amor… Esqueça esse amor de declarações em redes sociais, esse amor de beijos maquinais e apressados, tente ver o outro viés do amor. Note-o como um todo instante de vida feliz.

A nossa expectativa que haja uma forma para o amor é o fruto de tantas decepções. Quem sabe amar não é quem entrega-se a qualquer afeição corrida nessas tais varandas de amores febris. Saber amar é admitir a si o ineditismo da vida.

Talvez a gente só entenda e aceite o amor dignamente puro quando considerarmos as variáveis da vida, os términos, os fins, e assim olhar tudo isso com maturidade e compreensão de mundo. Mundo esse que é tão competente em distribuir momentos de alegria, dor, compaixão, reflexão e claro, amor.

O peito aberto sempre será o melhor parceiro da tão gostosa possibilidade de amar.

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